sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Um sopro de vida

(Imagem: Evora)

"Se este livro vier jamais a sair, que dele se afas­tem os profanos. Pois escrever é coisa sagrada onde os infiéis não têm entrada. Estar fazendo de propósito um livro bem ruim para afastar os profanos que que­rem "gostar". Mas um pequeno grupo verá que esse "gostar" é superficial e entrarão adentro do que ver­dadeiramente escrevo, e que não é "ruim" nem é "bom".

A inspiração é como um misterioso cheiro de âmbar. Tenho um pedacinho de âmbar comigo. O cheiro me faz ser irmã das santas orgias do Rei Sa­lomão e a Rainha de Sabá. Benditos sejam os teus amo­res. Será que estou com medo de dar o passo de morrer agora mesmo? Cuidar para não morrer. No entanto eu já estou no futuro. Esse meu futuro que será para vós o passado de um morto. Quando acabardes este livro chorai por mim um aleluia. Quando fechardes as últi­mas páginas deste malogrado e afoito e brincalhão li­vro de vida então esquecei-me. Que Deus vos abençoe então e este livro acaba bem. Para enfim eu ter re­pouso. Que a paz esteja entre nós, entre vós e entre mim. Estou caindo no discurso? que me perdoem os fiéis do templo: eu escrevo e assim me livro de mim e posso então descansar."

('Um sopro de vida' de Clarice Lispector)

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Mulher


(Imagem: 'Poème de l’âme' de Louis Janmot)
Lembra mulher de quando teus pés descalços pisavam na terra molhada, depois da tempestade tão esperada.
Recorda quando teus ouvidos sabiam compreender as mensagens que o vento assoprava para o teu espírito.
Inspira fundo e sente o aroma daquela época onde viveste próxima aos frutos e às flores e tudo acontecia em tempo certo, sem apressamentos.
Compreende que teu corpo e tua alma obedeciam à voz da Grande Mãe, e tua vida fluia plena de sabedoria, pois tu representavas a Deusa, o Sagrado Feminino, e de ti resplandecia toda a generosidade.
Recorda que conhecias bem os mistérios da lua, tua irmã, e te guiavas por instintos e intuições, sonhavas com as respostas e cheia de confiança em teu coração guiava a tua vida e de tantos outros por caminhos seguros.
Tua natureza, sempre disposta a dar vida e dela cuidar, ligada por estreitos laços aos ritmos e ciclos do universo, sabia cantar e dançar, e assim espalhava alegria pelo norte, pelo sul, pelo leste e pelo oeste, sem perder o teu centro.
Rosa dos ventos e dos tempos, hoje estás novamente aqui, mas não te esqueça jamais de continuar a cumprir o teu sagrado papel.
O Universo ainda carece do teu feminino...Ah! Então canta e dança...
E o destino dos homens se cumprirá!
(Autoria desconhecida)

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Espera

É como se cada dia dos últimos dias fosse um prelúdio do que está por vir.
Medo, dor e alegria. Tudo junto e mais que misturado: necessário e esperado. Ou não?
A cada dor uma pontada da certeza: a aproximação.
É a espera de não se sabe o que. É a certeza do que não se conhece bem.
É como se cada dia dos últimos dias fosse o apito de um trem que parece nunca chegar, mas que se vê apontar ao longe.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Setembro


Saudades de Paraty, a cidade com mais portas e janelas que eu já conheci. A mais bela, também. Lugar para admirar, sonhar e , tal qual suas portas e janelas, escancarar o peito tamanha a alegria que proporciona. Só estando lá, mesmo.

Quando entrar setembro
E a boa nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão
Onde a gente plantou
Juntos outra vez

Já sonhamos juntos
Semeando as canções no vento
Quero ver crescer nossa voz
No que falta sonhar

Já choramos muito
Muitos se perderam no caminho
Mesmo assim é facil inventar
Uma nova canção
Que venha nos trazer

Sol de primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de cor
Só nos resta aprender...

(Beto Guedes - Sol de Primavera)